sábado, 19 de maio de 2018

Antiguidade

Aos amores passados
o meu adeus.
Eu mudei
de casa e de nome.
Não me encontram mais
aqueles que procuram
pelo que eu fui.

Não era o melhor,
então ficou no fundo,
no fim do mundo,
a amante que
lhes deu o corpo
e a mente.

Um beijo,
um abraço,
um ano...
Sou sincera,
não lembro o que
foi que doei.

Mas não era o melhor,
então ficou no raso,
no passado, no passo.

Aos amores passados,
adeus, valeu ter estado.

Chuva fina

É triste a natureza
rígida dos corações partidos,
mas é lindo o cântico
bêbado da saudade.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Anatomia da tristeza

Os vermes da solidão
se contorcem como água
no oco do cerne
antes forte e intransigente.

As fibras retorcem
e estalam como chicotes,
ferindo a própria carne.

Os dentes mastigam
a si mesmos,
o estômago rejeita
a própria vontade.

Os pés não mais 
sabem o ritmo,
os olhos estão
ilhados.

A boca não fala,
não beija,
não cospe.

A alma não mais
acende a luz.

Sólito

Lá está o relógio,
a própria ilusão do tempo
fincada nos meus olhos
e nos pulsos alheios.

Lá está o que podíamos ser
e, também, o que não seremos.

Lá está o fim dos velhos sonhos,
e, também, o berçário dos novos.

Como o véu que cobre
o rosto da noiva,
e da viúva também.
A própria ilusão do tempo
nos cobra a vida.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Vago

Já não há mais tristeza.
Já não há mais alegria.
Resta pedir pela benção
da dor e da libido.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Melífera

Meu lábios comeram
suas nuas verdades.
Perscrutando atenciosa,
minha mente se alimentou
da semântica da mulher.
E meu olhos colheram
do rosto dela o alimento
das minhas fantasias.

Alimentei meu fôlego
com os suspiros da mulher.
Alimentei minha fé
com os olhares dela.
Ela lembrou-me
que amor é a saciedade da alma.

[Tema]

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O amor é fácil

O teatro das almas
abre-se apenas para
os exacerbados,
ridiculamente sinceros
e sentimentais.
O amor é fácil
no teatro das almas...
é possível observar
as mil personas que
residem no cerne do sujeito.
Olhando-as, nuas em sua sinceridade,
com oculares otimistas,
é possível encontrar
ao menos uma para amar.

sábado, 29 de julho de 2017

Arranjo

O futuro é meu dono,
sua argila grossa molda
minhas mãos.
O futuro é meu senhor
e eu sirvo a ele
sempre o meu melhor.

Medida

Se eu falar sobre mim,
no auge da fraqueza,
não há como saber
se o amor fica
ou se apavora.

Se eu falar sobre mim,
no auge da franqueza,
não há como saber
se o amor intensifica
ou se deteriora.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Baderna

Inovar o mistério.
A missão de mil anos,
o compromisso sem prazo.
Mudar enquanto ouço
o passado gritando em estéreo.
Uma vaga,
um estacionamento na memória,
para desenhar a mudança que vira tudo,
a mudança que virá.
Inovar o texto
que me rasga,
o pseudo-poema
que nasce caos
ou morre em pensamento.
Inovar o mistério
é o que preciso.